Antes de brindar com uma taça de Malbec, vale a pena entender a terra que o tornou possível. Geografia, história, agricultura e arquitetura se entrelaçam para explicar por que Mendoza é hoje uma das grandes capitais mundiais do vinho e um destino que vai muito além da taça.
Um oásis aos pés dos Andes
Mendoza está localizada no oeste da Argentina, aos pés da Cordilheira dos Andes, cujos picos — incluindo o Aconcágua, a montanha mais alta das Américas, com 6.961 metros — formam o pano de fundo de grande parte da paisagem da província.
Apesar da proximidade com essas montanhas imponentes, o clima é árido e semiárido: a precipitação é escassa, com uma média de cerca de 220 mm anuais, o sol brilha durante grande parte do ano e a diferença de temperatura entre o dia e a noite favorece um amadurecimento lento e equilibrado das uvas.

Essa combinação de luz solar abundante, baixa umidade e noites frescas faz de Mendoza um lugar excepcional para a viticultura de alta qualidade. Mas nada disso seria possível sem um elemento essencial: a água do degelo andino.
Agricultura: a arte de transformar o deserto em um oásis
Mendoza é, em essência, um oásis construído por gerações de habitantes.
Muito antes da chegada dos espanhóis, o povo Huarpe já aproveitava a água do degelo por meio de sistemas de irrigação. Diversos estudos indicam que esses canais foram aperfeiçoados durante o período Inca e posteriormente expandidos pelos colonizadores espanhóis, dando origem à extensa rede de canais de irrigação que ainda hoje caracteriza tanto a cidade quanto a paisagem rural.
Graças a essa engenharia hídrica, o que naturalmente seria um território desértico foi transformado em um dos principais oásis agrícolas da América do Sul. Vinhedos, olivais, pomares — como os de ameixa, pêssego e damasco — e hortas coexistem na mesma paisagem.


Entre todas as variedades, a videira ocupa um lugar privilegiado. A Malbec, introduzida da França em meados do século XIX, encontrou em Mendoza as condições ideais para se tornar a variedade emblemática da Argentina.

História: De cidade colonial à Capital do Vinho
A cidade de Mendoza foi fundada em 1561 por Pedro del Castillo, quando o território fazia parte da Capitania Geral do Chile. Durante grande parte do período colonial, a região manteve estreitas relações administrativas e comerciais com o Chile, um aspecto que deixou uma marca profunda em seu desenvolvimento.

Um evento decisivo marcou para sempre a história de Mendoza: o terremoto de 20 de março de 1861, que destruiu quase completamente a cidade colonial.
A nova Mendoza foi reconstruída aproximadamente um quilômetro a sudoeste do antigo assentamento, seguindo princípios de planejamento urbano inovadores para a época: ruas mais largas, praças estrategicamente localizadas como espaços seguros e extensa arborização urbana alimentada por canais de irrigação.
Esse projeto transformou Mendoza em uma verdadeira cidade-oásis, renomada por suas árvores, espaços verdes e relação singular com a água. No final do século XIX, a chegada da ferrovia e a significativa imigração europeia, especialmente da Itália e da Espanha, impulsionaram o desenvolvimento da viticultura por meio de novos conhecimentos técnicos, investimentos e uma forte ética de trabalho.
Arquitectura: Uma cidade que conta sua história
Explorar Mendoza é descobrir diferentes camadas de sua história.
Poucos vestígios do período colonial permanecem devido ao terremoto de 1861. As Ruínas de São Francisco, localizadas na Área Fundadora, são um dos principais remanescentes daquela primeira cidade.
A reconstrução deu origem a um traçado urbano com clara influência europeia, caracterizado por amplas praças, avenidas arborizadas e edifícios que refletem o ecletismo arquitetônico do final do século XIX e início do século XX, incorporando influências neoclássicas, italianizantes e, em alguns casos, da Art Nouveau.

Nas vinícolas, a arquitetura também conta a história da evolução de Mendoza: das antigas construções de adobe e tijolo, projetadas para manter naturalmente a temperatura das adegas, às obras contemporâneas de arquitetos renomados que dialogam com a paisagem andina e transformam muitas vinícolas em verdadeiros destinos de arquitetura e design.
Por que conhecer essa história transforma a viagem. Compreender esse contexto geográfico, histórico, agrícola e arquitetônico muda completamente a forma como você vivencia Mendoza.
Cada taça de vinho é o resultado de séculos de engenharia hídrica, do legado dos povos indígenas, da influência da imigração europeia, da reconstrução de uma cidade e de uma busca constante por inovação sem perder as raízes.
Essa é a história que convidamos você a descobrir em cada paisagem, cada vinhedo e cada vinícola de Mendoza.



